
A Guerra dos Mundos e o Mundo em Guerra
Por Freddy Charlson
As
chocantes cenas de ingleses, feridos e maltrapilhos, marcados
por sangue, carregando suas mochilas, com olhares assustados
pelas empoeiradas e sangrentas ruas londrinas, após
mais um atentado terrorista, neste 7 de julho de 2005, estão,
perigosamente, se transformando em cenas familiares. Feito
o 11 de Setembro de Nova York, ou o 11 de Março de
Madrid, o 7 de Julho de Londres entra para a história
como uma prova cabal da estupidez humana.
Atos terroristas que ceifam a vida de dezenas, centenas,
milhares de seres humanos, que destróem patrimônios,
que demonstram nossa clara fragilidade, porém, têm
suas várias razões de ser. À primeira
vista, a mais clara dessas razões é a insatisfação
dos terroristas com o modo vigente de como caminha a civilização
(?!), principalmente o modo como os chamados países
do Primeiro Mundo - notadamente aqueles que formam o G-8,
grupo dos sete países mais capitalistas e potentes
do globo (Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Japão,
França, Itália e Inglaterra) mais a Rússia
- tentam comandar a agricultura, a política, a economia
global. O modo como esses países tentam comandar a
produção, a religião, a cultura, a vontade,
o modo de vida das outras nações.
A postura de eternos colonizadores, em pleno século
21, parece incomodar, radicalmente, integrantes de grupos
como o ETA, IRA, Jihad Islãmica e, notoriamente, a
Al- Qaeda do milionário saudita Osama Bin Laden, que
agem mais radicalmente ainda. Em nome de uma pretensa fé,
fazem uma espécie de lavagem cerebral em seus militantes
e criam verdadeiras cobaias humanas metamorfoseadas em suicidas
homens-bomba. Vítimas inocentes - perdidas no World
Trade Center ou nos metrôs e ônibus de Madrid
e Londres - são consideradas meros "efeitos colaterais"
na disposição em praticar a "missão"
de combater o inimigo.
Assim,
eles produzem cenas que, infelizmente, estamos nos acostumando
a ver, como um tipo de diáspora praticada pelos cidadãos
desesperados em busca de um lugar seguro, qualquer um, que
seja. As cenas, coincidentemente, nos remetem a mais nova
aventura cinematográfica dos astros hollywoodianos
Steven Spielberg e Tom Cruise. Falo de "Guerra dos Mundos",
transposição para a película de um dos
clássicos da literatura originados da mente do inquieto
e crítico H. G. Wells, escritor nascido no século
19.
A criação original de H. G. Wells fazia uma
crítica à fúria colonizadora do Império
Britânico e ao estrago que essa fúria produzia
no mundo "não-civilizado" de então,
a África, a Ásia, a América. Em meados
da década de 1930, o clássico transformou-se
em paranóia quando outro gênio, Orson Welles
(sem parentesco sangüíneo com o escritor da obra
original), resolveu transmitir pelo rádio uma eventual
invasão da Terra por seres de outro planeta. Inocentes,
pessoas pegaram o que puderam e saíram pelas ruas em
busca da salvação frente a um inimigo ao mesmo
tempo mortal e desconhecido.
Anos depois, em 1953, a primeira filmagem do clássico
agagewelliano, feita pelo cineasta Georges Pal, teve uma crítica
conotação política. Afinal, explica-se,
eram tempos em que se vivia, na Guerra Fria, o cotidiano medo
de morrer. Quem sabe a União Soviética não
invadiria os Estados Unidos ou outros países capitalistas?
Quem sabe os Estados Unidos não invadiriam a União
Soviética e, por tabela, outros países comunistas?
Os seres de outro mundo significavam, infelizmente, pessoas
de outros países, alguns vizinhos, ao mesmo tempo fronteiriços
e distantes, em um mundo ainda não globalizado.
Algo
que não ocorre com o produto de Spielberg e Cruise,
blockbuster nas telas de todo o mundo. Feito ervas daninhas
plantadas em nosso solo gentil, os invasores resolvem tomar
conta do planeta e exterminar a raça humana. Mais desenvolvidos
e poderosos, atacam de surpresa - feito os terroristas de
Nova York, Madrid, Londres e Bagdá - e não possibilitam
a defesa. Fracos, resta aos terráqueos fugir. Para
onde, não se sabe. Feito os ingleses que catavam o
que podiam e pegavam a estrada, os personagens de um filme
cada vez mais real em nossas vida partem em busca do desconhecido,
porque a morte, o sangue, a dor que deixam para trás
está, como escrevi algumas linhas atrás, ficando
perigosamente familiar. E ninguém, nem de longe, a
quer por perto.
Freddy Charlson é jornalista e editor dos blogs www.freddycharlson.blogspot.com
e www.pazdejesus.blogspot.com
Ficha Técnica
Guerra dos Mundos
Diretor: Steven Spielberg
Elenco: Tom Cruise, Dakota Fanning, Tim Robbins, Justin
Chatwin, Miranda Otto David Alan Basche, Yul Vazquez,
James Dumont, Daniel Franzese, Ann Robinson
Nacionalidade: Estados Unidos, 2005
Gênero: Ficção Científica
Duração: 116 minutos
Classificação: 12 anos |
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